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A Personagem Feminina em “No Moinho”: de Pietà à Vênus.

  • Foto do escritor: deboracatanante
    deboracatanante
  • 29 de jun. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 11 de jan. de 2021

"No Moinho" de Eça de Queiroz, publicado originalmente na Revista Atlanta em 1880 e posteriormente em livro na coletânea Contos (1902), faz parte do Realismo português.

Eça de Queiroz


RESUMO

Este paper busca relacionar algumas considerações acerca dos ideais de feminilidade difundidos no texto “No Moinho” de Eça de Queiroz. Através da análise da personagem principal, Maria da Piedade, buscaremos perceber quando e de que forma ela se relaciona com Maria, mãe de Jesus, e a Deusa Vênus, ambas são representações religiosas, sendo Maria do judaico-cristão e Vênus do panteão religioso romano. As duas divindades, em essência, são ligadas à fertilidade, beleza e prosperidade, foram apropriadas de maneiras distintas, legitimando padrões de comportamento para condutas tidas como essencialmente femininas. Partindo deste diálogo, propomos discutir questões presentes no texto de Eça de Queiroz.


INTRODUÇÃO

Esse Trabalho tem como objetivo relacionar a personagem Maria da Piedade do texto “No Moinho” de Eça de Queiroz com Maria, mãe de Jesus, da crença judaico-cristã e com a deusa romana Vênus, a fim de restabelecer comparações entre a personagem de Eça e ambas as divindades em diferentes fases de sua vida, fazendo com que percebamos em que momento do texto ela se relaciona com determinada figura religiosa e o porquê de fazermos determinadas associações. Assim, tendo como referência as obras Literatura de língua portuguesa de Benjamin Abdalla; A personagem de Beth Brait; A construção social dos papéis sexuais femininos de John Baldwin e Mitologia Viva: aprendendo com os deuses a arte de viver e amar de V.D Salis, buscaremos identificar questões sobre religiosidade e feminilidade presentes na personagem Maria da Piedade.




ANÁLISE O texto “No moinho” de Eça de Queiroz possui como personagem principal D. Maria da Piedade que “era considerada em toda a vila como uma senhora modelo” tanto por sua beleza quanto por sua dedicação como mãe e esposa, chegando a ser considerada “uma fada”, pois ela cuidava de seus filhos e marido enfermos. Durante o conto essa personagem passa por 3 fases: A primeira fase é a D. Maria da Piedade como esposa e mãe dedicada, não importando a sua felicidade “corriam-lhe as lágrimas pela face”, pois a única coisa que lhe importava e que a fazia se sentir bem era a de ser útil para a sua família “feliz em ser boa”. A personagem vai à igreja, um papel importante para a mulher, mas só aos domingos para cumprir o papel social da época, afinal, ela não possuía tempo para Deus, sua casa tomava-lhe muito tempo. A partir dessas características da personagem, podemos relacioná-la à Maria, mãe de Jesus, uma divindade judaico-cristã. Maria engravida de Jesus, filho de Deus, mesmo sendo virgem e assim permanece mesmo após o nascimento de seu filho. Logo, Maria é a representação da castidade, honra e abnegação, está sempre disposta a ajudar e a servir ao lar, sempre refreando suas vontades pessoais por um bem maior. Maria representa a perfeição do feminino na terra, pois, ela é submissa e resignada. Possui uma imagem assexuada e naturalizada, representando a domesticação dos ímpetos femininos. A Virgem Maria era piedosa, provedora, dedicada e assexuada. (BALDWIN, 200). Portanto, assim como a Virgem Maria, Maria da Piedade é esclusa de sexualidade, sendo limitada apenas em sua função de mãe.

A segunda fase inicia-se com a chegada de Adrião, um romancista primo do marido de D. Maria da Piedade. O Primo Adrião quer vender sua fazenda, mas por não entender de “cifras” precisa da ajuda da personagem para realizar a venda. Esse fato faz com que os dois passem muito tempo juntos, e em um de seus passeios Adrião beija a esposa do primo, despertando nela desejos nunca sentidos antes. E é a partir desse despertar que a segunda fase da personagem se inicia, pois cuidar de doentes deixa de ser o que preenche sua alma e ela passa a querer mais, quer dar e receber amor de um homem “Os seus deveres, agora que não punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos”, ela passa a questionar sua vida, a desejar que seu fardo acabe. Observa-se que essa personagem foi influenciada pelo meio¹, e também devemos perceber que só conhecemos o interior dela por ser um texto em terceira pessoa². Para tentar suprir esses desejos, ela começa a ler os romances escritos por Adrião, e passa a ler cada vez mais romances, tornando-os seu refúgio daquela vida infernal “Foi durante meses um devorar constante de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo artificial e idealizado…”. Nessa fase de Maria da Piedade percebe-se um início de ruptura com a figura da Virgem Maria, ela está começando a deixar de lado sua submissão à casa e à família. Começando, diferente da Virgem, a valorizar seus desejos pessoais.

Por fim, há a terceira fase de D. Maria da Piedade, nessa etapa da história ela passa a sentir nojo dos doentes e de suas necessidades, logo, ela abandona a casa e os enfermos para ir atrás de homens. Assim sendo, percebe-se na terceira fase uma ruptura total com a figura da Virgem Maria que ela se aproximava até então. Nessa fase a personagem já deixou de ser parecida com a Virgem Maria, e é aqui que ela passa a representar a deusa romana Vênus, pois é nessa fase que ela desperta uma relação com a sua feminilidade e sexualidade. Para os romanos Vênus significava “nascida da espuma do mar”, mitologicamente nasceu em uma concha, e as Horas cuidaram dela desde o seu nascimento e impediram que o tempo passasse, mantendo para sempre a sua beleza. (SALIS, 2003) Vênus, assim, representava o poder que dava fertilidade à Terra, propiciava o desejo entre os seres humanos, fazia com que os deuses desejassem os mortais; dava a beleza, sensualidade e libido para as mulheres, e o desejo aos homens. Devido à estas atribuições, as representações iconográficas desta divindade apresentam-na nua, adornada por jóias e elementos sensuais. No entanto, nunca aparece totalmente despida, e com frequência, apenas insinua suas partes íntimas, de maneira que as esconde e ao mesmo tempo chama atenção para elas, através de véus ou de seus longos cabelos. Nesse sentido, esta divindade sempre aparece, mesmo que de maneira sutil, atrelada aos elementos de sexualidade, tornando-se um grande ícone da beleza feminina. O ritual dirigido à Vênus era centrado na importância da relação sexual, da fertilidade, da sensualidade, sobretudo na relação sexo-amorosa entre homens e mulheres. A partir dessas três fases pelas quais a personagem passa, percebe-se uma transformação na personalidade da mesma, pois ela passa de mulher amorosa, dedicada a sua família, de “anjo” para uma mulher desleixada, que não cuida da casa, do marido ou dos filhos “A santa torna-se Vênus”.


CONCLUSÃO Destarte, podemos relacionar essa personagem com as obras "Pietà", uma escultura, de Michelangelo, pintor; escultor; poeta e arquiteto italiano: Maria com o corpo morto de Jesus em seus braços após ter sido crucificado, se igualando bem a primeira fase de Maria da Piedade, a santa que dedicou sua vida inteira a cuidar de um enfermo, ajudando a família, sendo uma mãe dedicada que cuida da enfermidade de seus filhos, uma mulher tratada como divina “anjo”, assim como, A Virgem Maria. E com a pintura "O nascimento de Vênus" de Boticelli, um pintor também italiano. Pois ao analisar essa obra é possível enxergar nela Maria da Piedade, ou melhor, o despertar da Vênus na personagem de Eça de Queiroz, que até então estava reprimida dentro de si, portanto, é como se nascesse uma Vênus em Maria da Piedade.


REFERÊNCIAS ¹ ABDALLA Jr., Benjamin. Literaturas de língua portuguesa. São Paulo: Arte e ciência editora, 2007, p. 202.

² BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática, 2011, p. 53. (Série Princípios,3). BALDWIN, John R.; DESOUZA Eros; ROSA, Francisco Heitor da. A Construção Social dos Papéis Sexuais Femininos. In: Revista Psicologia: Reflexão e Crítica. Vol. 13 (3). Porto Alegre: UFRGS, 2000.

SALIS, V.D. Mitologia Viva: aprendendo com os deuses a arte de viver e amar. São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2003.

"QUEIRÓS, Eça. No Moinho. Belém: UNAMA < http://www.portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/File/eca13.pdf >. Acessado em 18 de novembro de 2019.”



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