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Capitu

  • Foto do escritor: deboracatanante
    deboracatanante
  • 23 de jul. de 2020
  • 4 min de leitura

Esta é uma análise da personagem feminina Maria Capitolina da obra Dom Casmurro de Machado de Assis, analisando-a de maneira comparada livro versus produção audiovisual (minissérie Capitu produzida pela Rede Globo).



Maria Capitolina interpretada pela atriz Letícia Persiles





O universo feminino é algo bem característico dos romances machadianos. E em Dom Casmurro, as personagens femininas são tão relevantes que uma delas tem a atenção total do narrado: a misteriosa e dissimulada Capitu. A personagem é vista como uma mulher cheia de sentimentos contraditórios e complexos, como qualquer pessoa.


Machado busca nomear seus personagens de maneira significativa, atribuindo nomes bem insinuantes a eles, como Capitu remetendo a Capitã (alguém que comanda).


Capitu é uma personagem tão marcante na literatura brasileira, pois ela difere das outras personagens femininas do realismo. Enquanto às personagens realistas procuravam status através de um casamento estável e praticavam adultério por tédio, Capitu é um mistério, é dissimulada, sutil, sensual e mostra seu apelo sexual desde à adolescência.




Capitu supera o próprio Dom Casmurro dentro da obra.


Capitu realmente traiu Bentinho?


O foco da descrição nos olhos de Capitu é uma forma de Machado mostrar parte de seu caráter e personalidade através de descrições. Mas mesmo que não possamos colocá-la como exemplo de virtude, também não podemos tratá-la como antagonista, pois, a única prova de seu adultério são os ciúmes do marido e o seu testemunho, ou seja, o testemunho de um narrador não confiável. Outro ponto, é que mesmo com todas essas acusações que Bento faz à esposa, Capitu aguenta às provocações do marido, merecendo respeito e admiração, como ele mesmo aponta em diversos momentos na obra.



Olhos de cigana oblíquo e dissimulada


O olhar de Capitu carrega sentimentos, muitas vezes sujos, como o egoísmo quando aos olhos de Bentinho ela é dada como adúltera, porém mantém sua sensualidade e astúcia.


Portanto, o olhar de Capitu não marca só suas características físicas, como suas características psicológicas, seus segredos. Através desse olhar, Bentinho tenta provar seus argumentos, porém só nos torna mais claro para o leitor que tudo não passa de seu próprio ponto de vista, como ele enxerga sua esposa, tornando o enigma da traição cada vez mais duvidoso.



Capitu livro x Capitu minissérie



A minissérie Capitu foi produzida e transmitida pela Rede Globo em 2008. A produção audiovisual conta com 5 capítulos, Euclydes Marinho responsável pelo roteiro e Luiz Fernando Carvalho pela direção-geral e de núcleo.


Na minissérie, mesmo o figuro de Capitu remetendo ao século XIX - o período em que se passa a obra de Machado de Assis-, a personagem possui uma tatuagem no braço, traçando sua contemporaneidade.


Num dos mais notáveis trechos do romance -capítulo XXXII- , o narrador fala dos olhos de sua amada. Bento começa relatando a conversa dos dois jovens sobre a urgência de o agregado José Dias intervir na promessa de Dona Glória, mãe de Bentinho, de que o filho será padre. No meio do diálogo, o rapaz pede para ver os olhos da amiga. O narrador diz que se tinha lembrado da definição que lhe dera José Dias: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Capitu se deixa fitar e examinar, mostrando, assim, ao leitor sua ousadia e sensualidade. Na minissérie a sensualidade de Capitu é representada, não só por suas descrições físicas e psicológicas, mas por seus gestos, movimentos e expressões corporais. Na cena descrita a cima, por exemplo, Capitu está olhando fixamente, passando as mãos nos lábios, de perfil, dando movimento aos seus cabelos.





Análise técnica


Ao analisar as cenas da minissérie é possível perceber que ela carrega alguns traços da em sua caracterização geral, desde figurino, cenário, luz, posição de câmera.


Por exemplo, a infância é mais luminosa, de cor branca, sem muita interferência de gelatinas artificiais, enquanto a maturidade possui cores mais quentes, como o vermelho, as imagens são mais densas, as cenas possuem partes claras em contraste com escuras.



Capitu (Letícia Persiles) e

Bentinho (César Cardadeiro), 2008/ Globo.



Michel Melamed e Maria Fernanda

Cândido na minissérie Capitu,

2008/ Globo.





Capitu, ao decorrer da narrativa, vai se tornando cada vez mais sensual, passando de moleca à dama, como uma princesa. Logo, os cabelos cacheados e revoltos passa a serem bem penteados, de maneira exuberante com extrema delicadeza e elegância, os quais, se harmonizam perfeitamente com suas roupas.


As flores do jardim da personagem, que antes, quando menina, eram encontradas presas nas barras de seus vestidos, na fase adulta estão desabrochadas em seus cabelos.

Esse detalhe das flores me encantou quando o percebi na adaptação audiovisual, pois o jardim de Capitu no livro, onde ela e Bentinho brincavam sendo representado dessa forma foi uma das coisas mais lindas na minissérie.


Afinal, esse fato mostra de uma maneira poética a passagem para a maturidade, o crescimento da sexualidade, pois é através dele que Bentinho quer convencer o seu telespectador da traição de sua esposa, logo, ele utiliza essas características de Capitu como argumentos para o seu adultério, fazendo com que seu público acompanhe o seu raciocínio, que entenda a trajetória da menina Capitu até se tornar a mulher adúltera que ele jura que ela é.


Na fase jovem (meninice) da personagem suas roupas se igualam a de uma princesa delicada, que é como Bentinho a vê nessa fase, mas também com o espírito de uma cigana arisca, de movimentos contínuos e livres, cheios de vida, por isso, suas saias são volumosas. As espumas das ondas do mar de seu olhar de ressaca estão na anágua da saia, que tem várias camadas de tecidos luminosos e transparentes. Pedaços de seu jardim tomam conta do vestido. E a tatuagem no braço da atriz Letícia Persiles, intérprete da personagem em sua meninice, é mais uma flor do quintal de Capitu. Tornando o jardim de Capitu muito presente ao mesmo tempo que fornece um ar contemporâneo à minissérie.



Meninice - flores na barra do vestido



Maturidade - flores nos cabelos


Letícia Persiles Maria Fernanda Cândido




Conclusão

A partir dessa análise comparativa entre a obra de Machado de Assis e da Produção Audiovisual produzida pela TV Globo, utilizo da mesma ideia de artimanhas de Dom Casmurro para convencer você que sem Capitu não haveria obra, portanto, ela é a personagem mais importante do livro, se tornando a personagem principal. Aliás, a minissérie é muito fiel ao livro e recebeu como título o nome "Capitu".





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